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EDITORIAL
Sebastião Teixeira Sobreira
Tudo eram trevas e Deus fez a luz. Por sermos sua obra mais perfeita e sua semelhança, tudo podemos em nome do nosso Criador. E foi assim, que destemidos e voluntariosos homens de mentes privilegiadas e de idéias voltadas para a cultura e para o aperfeiçoamento humano e, ainda, imbuídos de uma vontade irremovível, e unidos pelos mesmos ideais, fincaram, em 12 de junho de 1916, os pilares do, hoje quase centenário, Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Foi obra que se perpetuou no tempo, transformando-se, sem a menor sombra de dúvida, no Templo de Cultura desse grandioso Estado do Espírito Santo.
Quero, nesta oportunidade, render minhas mais sinceras homenagens a aqueles que consolidaram com determinação, amor e grandeza os alicerces que hoje dão sustentação à nossa História e à nossa Geografia. Portanto, quero abraçar carinhosamente a memória de todos os que por aqui passaram e, ao mesmo tempo, congratular-me com um afetuoso abraço aos que chegam agora.
O Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, que completa, neste momento, seus noventa anos de resistência, lutas e de amor pela causa cultural, certamente consolida-se com o seu passado e o presente que esperamos ser, cada vez mais, glorioso.
Que o presente trabalho sirva de roteiro para a família ihgeana conhecer melhor sua instituição, pois se ama mais na medida em que mais se conhece!... ________________________________________ Texto publicado no livro Histórico-Informativo. Obra editada em homenagem aos 90 anos do IHGES. Seu autor foi o nono presidente do IHGES. Faleceu em 08 de abril de 2007.
NOS NOVENTA ANOS DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO ESPÍRITO SANTO Getúlio Marcos Pereira Neves
Autoridades presentes, Meus caros consócios, Minhas Senhoras e meus Senhores:
Não tenho como exprimir a honra que é, para mim, ter sido distinguido com a designação para fazer a homenagem dos associados à nossa instituição, a essa instituição que amanhã, 12 de junho, completa noventa anos de fundação e de atividade produzindo cultura sobre o Espírito Santo, para o Espírito Santo e para o Brasil.
O Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, a Casa do Espírito Santo, epíteto que lhe é conferido no art. 1. do nosso Regimento Interno, é, como se sabe, a mais antiga instituição cultural aqui em funcionamento, e publica a mais antiga revista ainda em circulação no Estado. Nas viagens que tenho feito pelo Brasil visitei alguns congêneres, notadamente do Amazonas, do Pará, de Alagoas, e pude constatar que nada ficamos a dever mesmo às maiores Casas no que diz respeito a organização, a atividades, a produção científico-literária.
Felizmente a idéia norteadora da fundação desta Casa mostra-se imorredoura. Vem atestá-lo o respeito, a consideração e até mesmo a curiosidade de tantas pessoas que hoje afluem a esta comemoração, por um ou outro motivo. E esta idéia imorredoura é atual porque, não tenham dúvidas, uma Casa como esta será sempre necessária. De onde viemos? O que somos? Questões religiosas e metafísicas à parte, o IHGES procura responder a estas perguntas tendo como objeto de cogitação o Espírito Santo e os espírito-santenses.
Tempos atrás me debrucei sobre a investigação do como e do por que do Instituto, movido por pesquisas que então realizava na nossa revista, veículo de expressão dos trabalhos e das idéias surgidas nesta Casa. E o interessante é notar que a organização inicial do Instituto foi justamente uma maneira de canalizar idéias e trabalhos produzidos por um grupo de intelectuais contemporâneos, que, faz noventa anos, conseguiram angariar a simpatia e a adesão das melhores personalidades locais à sua causa.
Na verdade os que à época, em 1916, acorreram ao chamamento dos idealizadores, foram pessoas gradas, gradas no sentido de que tinham todas elas o que oferecer em prol do ideal que era posto naquele dia por Anthonio Francisco de Athayde, por Archimino Martins de Mattos e por Carlos Xavier Paes Barreto, os idealizadores do Instituto. É este último, o relator daquela tarde, que nos dá no seu discurso o sentido, o móvel, da criação da Casa. Quero aqui me deter mais pormenorizadamente neste ponto do que propriamente em crônica de acontecimentos. Porque este ponto, o que se refere à idéia imorredoura a que me referi acima, é o que nos reúne aqui hoje.
Nos anos iniciais da República o Espírito Santo já engrenara nos esforços de sair de uma hibernação que lhe fora imposta pelo fatalismo histórico de apresentar-se como barreira natural ao avanço para o interior do território aurífero. A vida cultural se incrementava, e nos meados do dezenove e início do vinte, esta vida cultural nada ficava a dever a outras regiões do país, à exceção, logicamente, das metrópoles. É fato, constatável por meio de qualquer comparação estatística, e, no entanto, preferimos nos lamentar e repetir, até mesmo em trabalhos sérios, que o Espírito Santo era pobre, a última província do Império, o último Estado da Federação etc.
Desculpem-me os repetidores desta idéia, mas quero crer que de fato não foi assim. Das Capitanias originais, a do Espírito Santo é uma das poucas que não foi englobada pelas metrópoles. Que restou da de São Vicente? Da de Ilhéus? Da de Porto Seguro? Da de Itamaracá? Mas se a lógica do discurso que levou a esta supressão de centros regionais parece ter calado bem fundo nos espírito-santenses de uma maneira geral, não o fez nos fundadores da Casa, que simplesmente vinham propor meios de desmarcar sua individualidade da do resto do país. Principalmente, da dos vizinhos poderosos.
Porque, se de fato havia na Vitória da época uma demanda pela organização de grêmios literários, que prosseguiria na fundação logo posterior da Academia Espírito Santense de Letras e da Associação Espírito Santense de Imprensa, as razões urgentes para a organização do Instituto eram mesmo de caráter prático e diziam respeito à disputa de terras com o Estado de Minas Gerais, para garantia da integridade do território; do resgate da naturalidade de Domingos José Martins, herói da Revolução Pernambucana de 1817, cujo nascimento no Espírito Santo era contestado, e da defesa dos prédios históricos existentes na Capital, que na época, e à exemplo do que ocorria no Rio de Janeiro, vinham sendo postos abaixo como tributo que deveríamos pagar pelo progresso da cidade.
Com relação à questão de Domingos José Martins, é interessante como incide aí essa lógica supressora, a que me referi acima. Se os autores locais, por exemplo Basílio Carvalho Daemon, já em 1878 provava a naturalidade capixaba do revolucionário de 1817, muitos outros, repetindo informação equivocada de Tollenare, o davam como baiano (Varnhagen inclusive). Como curiosidade registro que numa obra de 1893, chamada “Contos Amazônicos”, Inglês de Souza, grande político do Império, Deputado à Assembléia Provincial de São Paulo, Presidente da Província de Sergipe em 1881, Presidente da Província do Espírito Santo em 1882, fundador da Academia Brasileira de Letras, de cujo projeto de Estatuto foi redator, caracteriza o personagem principal de um dos seus contos como “um soldado fiel do capitão Domingos José Martins, o espírito-santense”.
Ora, não é possível que tantas personalidades da cultura brasileira da época (*) desconhecessem Inglês de Souza, que juntamente com Aluísio Azevedo introduziu a estética realista na nossa literatura. Assim, o que parece viger aí, nessa negação da naturalidade de Domingos Martins , posta corretamente por vários autores, é a idéia de que - o Espírito Santo, como lugar de nascimento de um pretenso herói, de fato existe? Para ser menos chocante, relembremos que tínhamos um território cuja integridade continuava ameaçada por mais de cem anos e um povo cuja memória quase não existia.
Espero ter dado a noção de quão imensa era a tarefa a realizar. E como se propuseram os iniciadores da Casa a realizar esta tarefa? Como fora feito no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, principalmente pela reunião e catalogação de fontes primárias, e algumas delas tiveram publicidade na revista. Pela organização e pela participação em certames nacionais, a exemplo dos contemporâneos congressos nacionais de Geografia, cuja oitava edição teve lugar no Espírito Santo, em novembro de 1926. Pela comemoração das datas nacionais, havendo registros na revista das várias solenidades pela passagem do aniversário da Independência e da República. Pela criação – ou resgate, depende do ponto de vista - de um mito fundador baseado, inicialmente, no resgate do exemplo de vultos notáveis do Espírito Santo e que hoje prossegue no debate acerca da identidade e da individualidade capixabas. Por último, pela divulgação de todo esse trabalho e de todas essas atividades, por meio da nossa Revista.
Por este motivo é que em “Notícia do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo” cuidei de apresentar a história da Casa sob o enfoque da análise da publicação. Na edição, e para edição, da Revista, estão refletidas dificuldades de funcionamento do Instituto, os momentos de maior e menor atividade, a importância do Instituto como órgão de resgate e de guarda das tradições do Espírito Santo e de seu povo. Das suas páginas vê-se patente, por exemplo, a necessidade inicial de afirmação da classe dirigente estadual frente à nação, e da legitimação dessa mesma classe dirigente frente ao povo capixaba. Vê-se patente a posterior adesão àquela idéia inicial - e assim fundada - de “capixabismo” pelo descendente do imigrante europeu, que em dado momento passa ao resgate de sua memória, em inúmeros trabalhos publicados. Vê-se patente, ainda, a paulatina profissionalização da escrita e da produção científico-literária, denotando o fato da abertura da Casa a um quadro associado menos elitizado e mais ligado, profissionalmente, a estes afazeres, pela criação da Universidade Federal. Ainda, e paralelamente a esta última constatação, a paradoxal abertura de suas páginas a uma escrita de muito menor rigor científico, o que colocava a questão de compatibilizar a crescente importância acadêmica da revista com o direito estatutário do associado de publicar trabalhos (desde que passem pelo crivo do Conselho Editorial).
Como instituição, o IHGES incorpora os esforços de todos quantos se devotaram à sua causa. Dos idealizadores já nominados, Anthonio Francisco de Athayde, Carlos Xavier Paes Barreto e Archimino Martins de Mattos; dos demais fundadores, cujos nomes não declinarei por constarem quarenta e três da ata de fundação, mas relembrando um só dos que emprestaram o inegável prestígio de seu nome ao início da instituição, Afonso Cláudio de Freitas Rosa; dos reformadores, o mesmo Archimino Martins de Mattos – que o foi, inclusive, na Academia Espírito Santense de Letras – e Eurípides Queiroz do Valle; dos planejadores, como Christiano Ferreira Fraga, em cuja gestão se deu um basta nas precárias instalações anteriores da Casa; daqueles que mantiveram viva a idéia, como Alberto Stange Júnior, que presidiu o Instituto quando, a rigor, não havia mais do que só uma idéia a presidir, no longo período de reforma da nossa sede; dos gestores eficientes, como João Bonino Moreira, exemplo de tesoureiro; daqueles cuja atividade nesta Casa encarna a essência mesma do Instituto, como Guilherme Santos Neves, Ceciliano Abel de Almeida, Elmo Elton Santos Zamprogno, Renato José Costa Pacheco.
Os esforços desses consócios ilustres fizeram frente principalmente às dificuldades que existiam e que existem em manter uma Casa com este perfil em funcionamento por tanto tempo. E a história do Instituto inegavelmente é mais uma história dessas dificuldades, dificuldades na busca por uma sede condigna, dificuldades na sua manutenção financeira, dificuldades na convivência com o associado distante.
Às vésperas do maior período de decréscimo nas atividades do Instituto, o período de reforma física da nossa sede, de 1969 a 1980, o Presidente Christiano Ferreira Fraga dava uma idéia do panorama da Casa. Não vem ao caso colocar em relevo, hoje, o problema da sede, que considero resolvido para a demanda atual. Mas sim os outros dois, de que à época, 1969, dizia referido presidente (Revista n. 28/30, 1969): sobre o primeiro, “Temos aguardado esperançosamente que todos os associados sejam pontuais em suas mensalidades, permitindo-nos ao menos a publicação regular da Revista...”. Com relação ao segundo, um lamento: “E esse crônico desinteresse pela cultura... Se conseguimos trazer até aqui alguma notabilidade de renome nacional ou internacional, nunca podemos contar com a numerosa e interessada assistência, esperável”, citando exemplos das palestras proferidas na nossa Casa pelos Profs. Curt Lange, musicólogo, e Dieter Woll, filósofo, ambos de renome mundial e que fizeram visitas ao IHGES por aquela época.
A partir daí, desse estado de coisas, o Instituto partiu para a reformulação da sua sede, reinaugurada em 15 de novembro de 1980. Partiu para um Convênio com o Poder Público Municipal de Vitória, assinado em 1991 e só extinto neste ano de 2006. Partiu para a ampliação, muito discutida, do seu quadro de associados. Ao fausto da primeira administração de Miguel Depes Tallon, época de efervescência e de grande produção cultural, seguiu-se o desencanto que restou do seu falecimento em pleno exercício da presidência, ao iniciar-se seu segundo mandato. Logo depois, o falecimento de alguns dos consócios que faziam a ligação no tempo entre o que enxergo como a segunda fase do Instituto (depois da revitalização promovida por Eurípides Queiroz do Valle) e a terceira (iniciada com a reinauguração da sede): os saudosos João Bonino Moreira e Renato Pacheco, cujo passamento foi a razão mais recente do nosso desalento.
Mas então são estes, novamente, tempos sombrios? Não, porque a idéia continua viva, e é o que importa. Mas, como associado, digo que o IHGES depende principalmente do associado. Particularmente, considero que não de sua presença obrigatória em todas as reuniões das quartas-feiras: de minhas visitas constatei que outras Casas pelo Brasil afora reúnem-se numa freqüência de uma vez por mês e até menos. Não é a quantidade de freqüência que importa porque, como lucidamente reconhecia o Presidente Christiano Fraga, mesmo no corpo daquela sua desalentadora análise a que me referi acima: “[...] a contribuição científica dos associados, que nunca será assídua pois têm suas prementes ocupações”. Importa é estar presente nos momentos de deliberação, de decisão, de dificuldades, importa produzir, concorrendo para o engrandecimento da Casa, como impõe a letra b do art. 6. do Estatuto. Importa, Senhores, não declinar dos encargos com que for distinguido, como impõe a letra c do mesmo art. 6. do Estatuto.
É essa não possibilidade estatutária de declinar do encargo que me fez atrasar sobremaneira a duração desta cerimônia. Ao passo que tomo à conta unicamente da gentileza da platéia o ter suportado este atraso até agora. Com estas reflexões mínimas, e com os meus parabéns à nossa Casa pela passagem de seus noventa anos de fundação, é que deixo os senhores novamente nas mãos do nosso Mestre de Cerimônias.
Muito obrigado. _______________________________________ Texto da palestra proferida na Assembléia Geral de 11 de junho de 2006, em homenagem aos 90 anos do IHGES.
NOTA Em “Domingos Martins e a Revolução Pernambucana de 1817” Norbertino Bahiense lista entre estes, além do citado Varnhagen, Joaquim Pereira da Silva, Mattoso Maia “História do Brasil”; João Ribeiro, “História do Brasil”; Sérgio Macedo “História do Brasil”; Cláudio Maria Tomás “História do Brasil”; Paulo Egídio de Azevedo e José Antônio de Carvalho Batalha (op. cit., pág. 122). De se registrar que não faltou quem desse a naturalidade de Martins como portuguesa, repetindo informação de Pierre Larrousse, em seu Grande Dicionário Universal.
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